A mão pesada da Petrobras chega na produção

Petrobras inicia renegociação de contratos com empresas afretadoras de FPSOs, ao mesmo tempo que petroleiras interessadas no plano de desinvestimento revelam intenção de melhorar as condições contratuais

[01.07.2016] 13h14m / Por Claudia Siqueira

A pressão da renegociação de contratos por preços e condições mais favoráveis bateu à porta das empresas que operam FPSOs para a Petrobras, prometendo se estender por um longo período. Seguindo a estratégia adotada no segmento de sondas, a petroleira vem convocando todas as afretadoras de unidades de produção, o que desta vez inclui as empresas inseridas no bloqueio cautelar da Lava Jato e envolve um total de 23 FPSOs, além de um FSO.

Na mesa de negociações estão contratos de afretamento com taxas diárias variando de US$ 250 mil a cerca de US$ 650 mil, que juntos asseguram uma capacidade instalada de mais de 2,1 milhões de b/d de óleo e 105 milhões de m3/d de gás. A lista de empresas convocadas inclui nomes do porte da SBM, Modec, Saipem, BW, Teekay, além das brasileiras Odebrecht, Queiroz Galvão, Schahin e Petroserv, que na maioria dos casos estão consorciadas com as estrangeiras.

A mão pesada da Petrobras não está poupando nem mesmo unidades que ainda não entraram em operação, como é o caso do FPSO Pioneiro de Libra e de outros que também estão em fase de conversão ou em processo de instalação, ou das unidades de menor porte voltadas a projetos itinerantes de produção, caso do FPSO Cidade de São Vicente. Nos corredores da petroleira os comentários são de que o processo é democrático, duro e complicado.

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Dificuldade à vista
Conduzido de forma bastante reservada, mais fechada ainda que as negociações para aos contratos das sondas e dos barcos de apoio, os acordos estão sendo comandados pela Área de Suprimento de Bens e Serviços, da nova diretoria de Recursos Humanos, Serviços e SMS. Algumas empresas já chegaram a fazer até quatro reuniões com a petroleira, mas o ritmo de negociação caminha de forma lenta, estando ainda longe de qualquer conclusão, tendo em vista toda a particularidade das unidades de produção.

 

A dificuldade do processo está diretamente ligada ao fato de que os FPSOs são customizados, desenvolvidos, em geral, especialmente para atuar em um determinado projeto, ao contrário das sondas, que podem vir a operar em qualquer ativo. Afora a questão técnica, os contratos de afretamento dessas unidades de produção têm menos margem de manobra no que diz respeito às taxas diárias às quais muitos deles ainda estão atrelados.

“As taxas diárias das sondas são regidas pela lei do mercado de oferta e procura. No caso dos FPSOs, a questão depende de uma infinidade de itens, que englobam conteúdo nacional, especificações técnicas do óleo e muito mais, sem falar que a margem para contrapartida é bem menor”, reforça um representante de uma das contratadas.

Entre as unidades de produção que figuram na renegociação estão nove FPSOs do cluster de Santos – Cidade de Angra dos Reis, Caraguatatuba, Ilhabela, Itaguaí, Mangaratiba, Maricá, Paraty, São Paulo e Saquarema –, alguns dos quais possuem capacidade de produção de 150 mil b/d. Há também unidade de 120 mil b/d, 80 mil b/d e outras de menor porte, capacitadas para volumes variando entre 35 mil b/d e 15 mil b/d. Algumas delas estão produzindo bem abaixo do limite de suas plantas, como é o caso do FPSO Piranema.

Dos 24 FPSOs afretados, sete têm contratos por vencer no período 2016 a 2019. Diante da dificuldade financeira que enfrenta, não será surpresa se ao longo desse processo a Petrobras optar, por exemplo, por reduzir o número de unidades voltadas a testes de longa duração, hoje somando quatro FPSOs.

A Modec lidera a lista das empresas com maior número de unidades sob contrato com a Petrobras, com nove FPSOs, sendo cinco em consórcio com a Schahin, grupo brasileiro que enfrenta um processo de recuperação judicial, e outros quatro sozinha, com participação de 100% nos ativos. Ocupando o segundo lugar vem a SBM, com um total de seis unidades, sendo quatro consorciadas à Queiroz Galvão e duas sem parceiro.

Aperto privado
Não bastasse a queda de braço com a Petrobras, as afretadoras de FPSOs correm o risco de ter de enfrentar um novo processo de negociação mais adiante. Com o barril do petróleo em baixa, petroleiras que estão de olho no pacote de venda de ativos da Petrobras estudam adotar novas formas de negócio caso venham a assumir a operação dos projetos, e já indicam a intenção de renegociar alguns contratos de unidades de produção.

Na venda de ativos estão projetos como Baúna, Tartaruga e Golfinho, que contam com unidades afretadas. A percepção quase unânime entre executivos de petroleiras e especialistas do setor é de que qualquer empresa que assuma a operação dos ativos da Petrobras trará os principais fornecedores para mesa de negociação a fim de buscar condições de contratos mais atraentes e mais condizentes com a atual realidade do mercado.

Para a maioria das petroleiras, a atratividade de grande parte dos projetos em oferta pode ser sensivelmente melhorada se algumas condições de contrato forem revistas. Sob essa premissa, aposta-se que algumas negociações com empresas prestadoras de serviço na área de produção devam caminhar em direção ao modelo de contratos com participação nos resultados, regime de negócio ainda pouco adotado no Brasil, mas bastante utilizado no exterior, sobretudo em projetos onshore.

http://brasilenergiaog.editorabrasilenergia.com/news/oleo/ep/2016/07/o-aperto-chega-na-producao-450230.html

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