Governo cogita usar Petrobras como moeda de troca para abrir mercados

Em meio ao mapeamento de medidas de estímulo à recuperação do crescimento, uma das ideias apresentadas no recém-criado “núcleo econômico” do governo interino de Michel Temer é aproveitar a munição da Petrobras como importadora de petróleo e equipamentos para negociar a abertura de mercados para produtos brasileiros no exterior.

A proposta foi colocada à mesa pelo ministro das Relações Exteriores, José Serra, mas ainda não há decisão tomada pelo governo sobre o assunto, que se encontra em etapa inicial de análise.

Em reunião na semana passada, no Palácio do Planalto, Serra citou a Nigéria como exemplo. O país africano desponta como principal fornecedor de óleo cru para o Brasil, usado no refino de combustíveis, com compras que alcançaram a cifra de US$ 3,8 bilhões em 2015. Em contrapartida, os exportadores brasileiros conseguiram vender apenas US$ 672 milhões ao mercado nigeriano no ano passado.

A Nigéria já foi questionada, na Organização Mundial do Comércio (OMC), sobre barreiras impostas às carnes do país.

O exemplo da Nigéria foi pontual. A ideia colocada é que o governo – orientado pela remodelada Câmara de Comércio Exterior (Camex) – jogue mais ativamente na arena internacional: comprar mais de quem compra produtos brasileiros. O Irã, reincorporado ao mercado global de petróleo, é um potencial mercado para alimentos processados e materiais de transporte (aviões e automóveis) fabricados no Brasil. É aí que o poder de barganha da Petrobras pode entrar em cena.

Depois da Nigéria, Arábia Saudita, Argélia e Guiné Equatorial vêm em seguida na lista dos atuais fornecedores de petróleo do Brasil. Todos eles, porém, também são tímidos importadores de mercadorias brasileiras.

Na discussão dessa ideia de abrir mercados, foi notado que algumas oportunidades teriam sido desperdiçadas, como a recente aquisição dos 36 caças suecos Gripen NG pela Força Aérea Brasileira (FAB). A visão de Serra é que o Brasil poderia ter aproveitado para aumentar a venda de seus produtos à Suécia.

Embora algumas fontes lembrem que, nos anos 70 e 80, uma estatal chamada Interbrás atuou com a Petrobras para abrir mercados, a ideia apresentada agora pelo chanceler seria de um mecanismo muito mais informal e político do que o executado naquela época. A empresa chegou a fazer contratos comerciais que envolviam remessas de carros Passat para Bagdá e eletrodomésticos para a Nigéria – dos quais Pelé foi um dos garotos-propaganda – em troca de petróleo.

No esforço para alavancar a economia, o governo também trabalha com a ideia de redirecionar a política externa do país. A avaliação é que o Mercosul tem “amarrado” a capacidade exportadora nacional por prejudicar a assinatura de acordos comerciais. Alavancar o comércio exterior, aproveitando o momento favorável proporcionado pela taxa de câmbio, é uma das diretrizes para a elaboração de medidas para fomentar o crescimento do Brasil.

A discussão de medidas para fomentar o crescimento é feita a partir do diagnóstico de que é preciso reforçar, no curto prazo, o processo de melhora na confiança, que já estaria começando a ocorrer na economia. Mesmo que as medidas tenham, em geral, impacto de longo prazo, como a ideia de fortalecimento das agências reguladoras, a leitura é que, quando forem anunciadas (o que estava previsto para cerca de duas semanas), elas melhorem o humor no curto prazo.

O Palácio do Planalto considera que a economia tem sido o ponto forte do governo e assim precisa se manter. Nesse sentido, são crescentes os comentários dentro do governo e por parlamentares da base aliada de que é preciso resolver a questão do impeachment da presidente Dilma Rousseff para acelerar o processo de recuperação econômica e atrair investidores.

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