Como uma renomada gestora de fundos virou caso de polícia

São Paulo — O economista Manoel Carvalho Neto, fundador da gestora defundos de investimento Silverado, estava passando férias na Suíça, em janeiro, quando a agência de classificação de risco Standard & Poor’s (S&P) disparou um alerta vermelho sobre seus negócios.

Carvalho Neto é (ou era, até então) um dos mais renomados gestores dos complexos fundos de direitos de crédito no país, os FIDCs — que financiam a cadeia de fornecedores de empresas como a petroleira Petrobras, a mineradora Vale e a varejista B2W.

Depois de quase dez anos avaliando o risco do principal fundo da Silverado — parte da exigência dos grandes investidores para aplicar seu dinheiro — a S&Pcomunicou que não havia informações suficientes para fazer uma avaliação. O rating foi retirado, num sinal de que havia problemas sérios na gestão dos FIDCs, e começou um deus nos acuda para os investidores do fundo.

Nos últimos cinco meses, um grupo deles se dedicou a investigar possíveis fraudes. Quase todos os 60 funcionários da Silverado foram demitidos, o patrimônio dos fundos caiu 90% e até a Polícia Federal já entrou na história.

O alerta da S&P indicava que os fundos Maximum, Maximum II e Fornecedores da Petrobras teriam operações com empresas ligadas direta ou indiretamente a sócios e funcionários da Silverado — o que é proibido pelo regulamento. No total, a Silverado tinha 652 milhões de reais sob gestão.

Dada a reputação do gestor, que costumava alcançar a meta anual de retorno (de 130% do CDI, em alguns fundos), os investidores resistiram a acreditar no que estavam vendo. “Achávamos que o Manoel daria uma explicação plausível e que poderia até ter havido alguma operação imoral, mas não ilegal”, diz um dos investidores, que pediu anonimato por se tratar de um tema confidencial.

Entre os investidores dos FIDCs da Silverado estão a SulAmérica Investimentos, os bancos BTG Pactual e JP Morgan e family offices, como a Aguassanta, da família Ometto, e a ­BSPar, da família Studart. Após o alerta da S&P, Carvalho Neto parou de atender os telefonemas dos investidores e não compareceu à assembleia marcada para dar explicações.

O sumiço do gestor fez com que os investidores destituíssem a Silverado da gestão do fundo e corressem para firmas de advocacia, recuperação de crédito e auditorias para entender o tamanho do rolo. Na investigação feita até agora, os investidores encontraram três problemas. O primeiro é a alta concentração de crédito nas mesmas empresas, contrariando as normas do fundo.

Para piorar, essas eram justamente as companhias ligadas aos sócios — caso da Centurial Investments, que representava 75% das aplicações do fundo Maximum em fevereiro. Nove empresas ligadas ao grupo Centurial, que mudaram de nome diversas vezes, tinham como sócios diretos ou indiretos funcionários da Silverado, segundo os investidores.

Agamenone Callegari, sócio da Silverado, e o próprio Carvalho Neto eram fundadores da Flux Produção de Imagens, uma dessas empresas. Segundo o levantamento dos investidores, essas operações, que podem ter sido usadas para tirar dinheiro dos fundos, aconteciam desde 2013. O terceiro problema são créditos que sim­plesmente não existiram.

A BNY Mellon, responsável por verificar se o fundo estava cumprindo o regulamento, co­meçou a questionar empresas para verificar se haviam de fato vendido seus créditos para a Silverado. Devedores como a Telefônica e a varejista B2W informaram desconhecer os fornecedores registrados no fundo.

Em outros ca­sos, quando a Petrobras aparecia como devedora, a dívida já havia sido paga, mas não tivera baixa no fundo. Procurado por EXAME, Carvalho Neto agendou uma entrevista por telefone, mas não pôde ser encontrado por sua assessoria na data combinada.

Em nota, ele nega irregularidades, questiona a avaliação feita pela S&P e afirma que sempre se colocou à disposição dos cotistas. “A Silverado afirma sempre ter agido com zelo pelas regras do fundo e das instituições reguladoras”, diz a nota.

Em abril, os investidores da Silverado apresentaram um pedido de investigação criminal ao Ministério Público Federal e, em maio, foi aberto um inquérito, que corre em segredo de Justiça e já foi encaminhado à Polícia Federal.

Os cotistas também acusam de omissão os administradores (Mellon e Gradual) e os custodiantes dos fundos da Silverado (Deutsche Bank e Santander), responsáveis por checar a concentração e a existência dos créditos. No total, cobram indenizações de mais de 400 milhões de reais.

A Comissão de Valores Mobiliários abriu um processo para avaliar o caso. Gradual, Deutsche e Santander não comentam o assunto, mas dizem que atuam em conformidade com a legislação.

O BNY Mellon diz que “de forma coerente com suas responsabilidades, assim que uma suspeita de fraude foi identificada na gestão do fundo Maximum, informou ao mercado sobre o aumento das provisões” e que “acredita não ser responsável por eventuais danos” aos investidores.

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